O dia em que você se foi

De você
apenas a lembrança
Da sua ida
apenas uma flor
Para mim
uma noite chuvosa
Para você
uma eternidade de amor.

O último toque enrijecido
Dos seus olhos, a última cor
O último suspiro esganado
Que por tanto tempo esperou

Às três horas ao meu lado
Às cinco também
Seis horas lhe deixei
E onze você se foi também.

Despertador

Eu sonhei

Com cavalos e dias felizes

Com a liberdade deles

E com a minha própria

Sonhei com realidades paralelas de alegria

Em que eu montava e corria

Sem hora pra voltar

Mas o despertador apita gritando

Sentado ao meu lado na cama ele me olha cândido

Me dizendo que era hora de acordar.

MARINA RUSSO

Amarelo queimado

As fotos se pintam de sépia

Obscurecem e envelhecem

Minha mente também 

Todos com pinceis amarelos queimados

Pintando as memórias que vão deixando

As estradas que vão passando

As fotos todas em uma caixa

Onde a própria caixa envelhece

As traças corroem 

Já levaram um ano inteiro

Estão comendo a alfabetização 

O mofo encobriu o meu amigo de infância

As teias ornamento a formatura

Um canto separado pelo hoje

Um separado para o amanhã

Mais memórias em sépia

Futuro em preto e branco.

MARINA RUSSO

O Ponto

Ponto

Sinal frustrado

Causador do fim 

Inveja a vírgula e sua continuidade,

Inveja a exclamação e a sua efetividade,

Inveja a interrogação e a sua sugestividade.

Mas o ponto continua

Sozinho sempre, 

Dando os seus fins por aí, 

Solitário carregando as suas mágoas.

Até um dia de um texto qualquer,

Andando por umas linhas

Encontrou outros dois desafortunados.

Dois pontos

Que um em cima do outro estavam sendo abandonados

E unidos na solidão, 

Um se juntou com dois

E três pontos se tornam reticências,

Que traumatizados com os “fins”

Dão a tudo um final inacabado…

MARINA RUSSO

Números

O meu mal começou  quando minha vida passou a ser números, 32, 29, 10. A minha nota, quanto tempo falta, o número de semanas, horas, dias, minutos, a contagem regressiva para o fim do mundo, a medição do meu próprio ser. A minha desgraça começou quando eu própria virei um número, uma estatísca. Porém por só agora notar o número que sou, não quer dizer que jamais fui antes. Se meu mal começou quando virei um número, meu mal começou com o primeiro choro. Fui tornada segunda filha, mais tarde primeiro mês, depois segundo e assim ia até formar um ano. Depois virei o número 22 da chamada, ironicamente o dia do meu aniversário. Cresci e virei 25, a turma aumentou. Agora sou 29, mas a 3 semanas eu era 32, semana que vem serei 28 e quando morrer serei pó, o pó do túmulo 310.

MARINA RUSSO

Esse meu amor

Por isso que não lhe sou

enquanto está em “a”

eu estou em “mor”

E quando você nota

pra mim já acabou

Você fica e eu vou

Continuo a procurar a próxima vítima dos meus pensamentos

ou, com sorte, 

alguém que fale as sílabas na mesma velocidade que eu

MARINA RUSSO

Cansei

Porque uma hora ou outra a gente cansa, os músculos pesam, as costas doem, e como doem. Estou cansada de carregar meu peso, cansada de ir juntando os cacos do meu futuro e enchendo sacos inteiros postos em minhas costas. Cansei de ir colhendo os louros que plantei, nunca louros foram tão pesados, e nem as sementes deles também. O que me prova de que em algum momento por descuido eu não esqueci de pegar um caco essencial que sem ele desmoronaria todo o castelo de cristal dos meus planos futurísticos?Nada me prova que eu não cometi um erro no meio do caminho, que eu não passei por cima dos louros. Nada me prova que no fim terei uma cama para descansar minhas costas pesadas e minhas pernas exauridas. É crueldade demais nos colocar em uma caminhada sem saber o fim dela, mas é o sistema… Desde quando eu tenho que seguir um sistema? Cansei, farei do meu saco um travesseiro e o céu um deleite para o dia inteiro.

MARINA RUSSO

Ode ao poeta

Poeta é inteligente

Para viver das palavras tem de ser 

Quando o poema custa a vir

Quando a inspiração tende à esquerda

Poeta e sua caneta

Transformam branco em colorido

Dão vida ao nada

E com sua letra desajeitada

Homenageia a falta de palavras 

Com um poema repleto delas.

MARINA RUSSO

Minh’alma

Minh’alma não é mais minha

Essa agora chora

Minh’alma não tem lágrimas para chorar

Minh’alma cala silenciosa

Ela é calmaria

É azul céu e azul mar

Alma de âmbar

Minh’alma é serena

Sonhadora, amena

Alma dos romancistas

Dos mais lindos poetas arcades

Porém agora sem nenhuma calma,

Onde foi para a minh’alma?

MARINA RUSSO